Rio de Janeiro – A verdade dolorosa


legião urbana perfeição

Vamos comemorar como idiotas a cada Fevereiro e feriado

E também aos domingos… Esse povo carioca é mesmo muito festeiro. E, a cada domingo, percebo essa capacidade. E, hoje, dia do Trabalhador, não poderia ser diferente. O pessoal labuta muito, e já comemorou no domingo a simples existência inútil, mas, dois dias depois, tem que repetir a dose. Dessa vez juntando a galera de sempre, mas numa terça-inesperada-feira, acabando já com uma hora acordado neste dia fatídico, as minhas esperanças de estudar, ler, ver filme. Tampouco posso andar de bicicleta para me libertar, ainda que momentaneamente, da ditadura do som alto, uma vez que está chuvendo. Infelizmente a chuva não atrapalhou o pessoal gente fina a se juntar para tomar aquela gelada e curtir qualquer coisa que é tocada em loop infinito que está na moda. Só me restou ouvir meu som o mais alto que meu equipamento permite (suficiente para ouvir a minha música e esquecer, pelo menos até o intervalo entre uma música e outra, da farra alheia) e escrever este post. Todos estão surdos…

Outro dia, um cabeludo falou:
"Não importam os motivos da guerra
A paz ainda é mais importante que eles."
Esta frase vive nos cabelos encaracolados
Das cucas maravilhosas
Mas se perdeu no labirinto
Dos pensamentos poluídos pela falta de amor.
Muita gente não ouviu porque não quis ouvir
Eles estão surdos!

Realmente, o brasileiro tem muito o que comemorar. Mais pessoas morrem por aqui devido a desastres naturais, proporcionalmente, que no Japão ou na Holanda, países com problemas naturais graves, do tipo aqui morremos com uma enchente de um rio enquanto lá menos gente morre quando tem um terremoto, invasão do mar ou um acidente nuclear. Por sinal, ainda há pouco estávamos com uma bomba relógio, um carro com material radioativo foi roubado , podendo provocar uma tragédia, mas, felizmente, está “tudo bem”.

E todo domingo (e, a novidade, feriado!) sou obrigado a ver na prática a decadência desta cidade. Bom, a decadência lá fora eu relevo bem, o que me incomoda é que, no conforto do meu lar, onde quero descansar, ler, ouvir o canto dos pássaros, está havendo uma migração intensa, provavelmente de pessoas buscando um lugar calmo, para que ninguém incomode com um barulho maior. Aqui sempre foi um lugar residencial. Delimitado por uma favela e um bairro nobre, a expansão daqui tem sido doentia, destruindo toda a tranqüilidade, um lugar em que se ouvia o canto dos pássaros, o cortar da madeireira e o saudoso toque da sanfona. Sim, isso chega a me dar um aperto, antigamente eu relaxava ouvindo o caseiro do atual condomínio tocar a sanfona, ficava lá deitado, olhando as nuvens e o lamento bonito deste senhor. Ele foi despejado pois finalmente venderam o terreno, foi viver num buraco, provavelmente não está mais vivo. E o progresso chegou, com suas caixas de som. O alarme de carro que toca 5 vezes ao dia. E a infinidade de motos.

O efeito formigueiro das motos parece se expandir por toda a cidade, mais uma característica da derrota do Rio de Janeiro. Isto pode ser efeito de não termos um sistema de transporte dos melhores: os ônibus passam por fora, vem cheios e com gente que ouve música sem fone de ouvido. Mais uma vez o barulho. Os motoristas nem olham mais para a cara do passageiro, se olham é para dirigirem algum deboche. Têm certeza da impunidade: recebem pouco, mas, em compensação, nenhuma daquelas reclamações dirigidas à DETRO vão chegar às empresas. Muitos optam por dirigir um carro, outro retrato do estado de putrefação deste lugar. Muitos carros sem condições de andar pela rua, muitas infrações impunes, carros avançam o sinal sem o menor cuidado, dirigindo para matar. Por vezes, aconteceu de eu ver alguém avançando o sinal com pedestres atravessando e, se não tivessem pulado pelas suas vidas, morreriam mesmo. Temos assassinos ao volante. E todo tipo de malandragem acontece no trânsito.

Talvez esse seja um ponto chave do estado de imundíce carioca e fluminense: desde cedo, somos criados a ser malandros e ter pavor de ser colocados pra trás. Dizem que cariocas são muito prestativos com turistas, o que vejo acontecer por aí é tentar arrancar dinheiro e gente que ri do sotaque. Diria que é um povo extremamente xenofóbico. As mulheres costumam ser mais prestativas, querem dar pra eles. Eles vêm com um pensamento que aqui só tem puta, é a velha hospitalidade tupinambá.

essas índias usam mais roupa que piriguet

Colocamos mulheres seminuas para recepcionar chefes de estado sambando, e nos irritamos com a fama do nosso turismo sexual? E aqueles alemães que fizeram o absurdo de ficar pelados no aeroporto?? Aliás, em termos de hipocrisia, somos um povo campeão. Adoramos rir de piadas de português, americano, argentino e francês, mas quando se fala um ai desta terra maravilhosa, partimos para a briga. Processemos Os Simpsons.

não achei o personagem do zorra total que era o chato que fazia piada mas não aceitava piada, então vai essa mesmo

E quando o bairro mais famoso da cidade é um bairro de prostituição e uso de drogas, dá pra se ver bem o nível em que a população vive. Copacabana é famoso pela sua vida noturna e a presença de mendigos, traficantes e putas. Talvez seja este o nosso verdadeiro potencial turístico. Até por que, nossos morros e natureza, que supostamente faziam par com construções da época de D. Pedro II (que também são levados nas coxas, na maioria das vezes, e, quando bem cuidados, são inseridos numa situação de falta de interesse em cultura e uma vizinhança de mendigos e uso de crack, vide Theatro Municipal) integrando-se como a beleza deste local, são invadidos por moradores “trabalhadores” muitas vezes agressivos. O nível é tal que um dos principais cartões postais da cidade aparece com uma grande favela à mostra.

Leblon noite

Fico pensando nas pessoas oprimidas, como eu, que ainda moram em favelas. O problema do barulho parece ser bem intensificado por lá, já que, se aqui não tem estado, imagina lá dentro. Já passei por favelas (em partes próximas do asfalto) em horários de “sossego” e sempre tem um animal a colocar um som alto. No caso do Rio das Pedras, foi uma visão do inferno, eram 4 e meia da manhã e um engarrafamento infernal, com pelo menos 5 músicas altíssimas. Rio das Pedras é outro problema sério desta cidade, mas já está fora da zona onde se espera o mínimo de interesse do governo. É uma das regiões mais povoadas da cidade e não contará nem com corredor de ônibus nem com metrô, linha 4, uma das maiores piadas contadas em forma de propaganda. A linha 4 atenderá  a Barra, mas uma única estação na Barra, que tem mais de 10 km de extensão. E este é um dos lugares que se imaginava que tem um apelo maior… Por sinal, os únicos lugares que parecem ser razoáveis ainda são Ipanema, Leblon, Gávea, Lagoa e Urca. Talvez Vila Militar, os dois últimos são bairros de instituições militares, não tenho certeza se há residências em Vila Militar até porque não conheço bem. Ipanema possui o uso de maconha, podemos achar pichações em alguns pontos desses lugares, mas neles, os problemas parecem amenizados. Também não conheço bem o suficiente para saber se é possível se sentar e relaxar por lá. O que me impressiona é que, mesmo bairros localizados em áreas valorizadas e próximas a pontos turísticos, como Flamengo e Botafogo, sofrem de abandono. A Tijuca, outrora um dos melhores lugares para se viver, sofre uma forte decadência. Claro que, imersos no boletim de piada, estes bairros ainda são valorizados para compra e venda, ainda há interesse das pessoas em viver por aqui: há emprego e know-how.  E muitas delas estão desinteressadas em lutar contra a catástrofe que nos preenche, são simplesmente bananas…

A minha esperança é que nem todos sejam bananas. Que alguém que me leia compartilhe dessa indignação, que se sinta de mãos atadas por chamar a polícia e ainda receber mais falta de educação. Existem pessoas assim, eu sei porque consigo achar nas seções de reclamações dos jornais. Às vezes acho que o melhor a fazer é todos embarcarmos juntos, fundar uma cidade e deixar a cidade da farra para que nossos irmãos se divirtam à vontade. Nunca faltará motivo para comemorar. Somos um povo feliz com pouco, que tira sarro dos chatos que exigem respeito. Viva o pão-e-circo.

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