A indiferença socioeconômica do povo, por Zeca Pagodinho

Todos sabemos que o povo brasileiro é muito pacífico e bem humorado, até que você discordo de algo. Politicamente falando, é um povo geralmente indiferente e religioso, no sentido em que tenta acreditar naquele candidato com carisma até que as evidências sejam totalmente óbvias. E, o pior de tudo, o brasileiro é um povo reclamão, mas acomodado. Pelo menos o são os que eu conheço. Nunca vi alguém falar bem do governo, igualmente nunca vi, fora do ambiente universitário, um cidadão apertando a mão de candidato, mas exigindo algo. Pessoas que falam mal do governo, mas não movem um dedo pra exigir seus direitos. E, possivelmente, acham que hospitais e escolas públicos são ruins porque são de graça, quando não o são. Zeca Pagodinho (eu tenho quase certeza que não foi ele quem compôs: pelo que sei, ele conta com vários parceiros que compõem, ele só tem a parte da carisma, é o Lula da MPB) descreveu isso de forma épica na música “Deixa a vida me levar”. Acompanhe.

Eu já passei
Por quase tudo nessa vida
Em matéria de guarida
Espero ainda a minha vez

Começa bem “espero a minha vez”. Quem espera, é porque depende dos outros, quer o melzinho na chupeta. A gente espera ônibus, a gente espera filho. Não podemos esperar a vida melhorar, tem que correr atrás, campeão!

Confesso que sou
De origem pobre
Mas meu coração é nobre
Foi assim que Deus me fez…

Tá, nada contra você ser pobre, é até poético, fica bonito, mas o “assim que deus me fez” revela o determinismo e, novamente, a disposição em esperar que as coisas se acertem. Deus fez você assim, bom! Deus fez os políticos corruptos, uma pena! A gente vai levando… (Buarque, Chico)

E deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)
Deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)
Deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)

E o grande refrão do pamonha brasileiro. Deixa a vida me levar e a licença poética para o vida leva eu, tudo isso para se contentar com a vida mais ou menos de proletário.

Sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu…

De novo esse rapaz, o Deus.

Foi deus que deu e satanás que pagou as prestações, fdp

Só posso levantar
As mãos pro céu
Agradecer e ser fiel
Ao destino que Deus me deu

Respira…

Se não tenho tudo que preciso
Com o que tenho, vivo
De mansinho lá vou eu…

Você não precisa de tudo isso que você pensa, amigo. Você é um oprimido do sistema que faz você pensar que precisa de mais que isso. Mas, tudo bem, supondo que o eu-lírico seja mesmo carente, esse verso parece ser o mais ingênuo até agora.

Se a coisa não sai
Do jeito que eu quero
Também não me desespero
O negócio é deixar rolar

Pronto, voltou à acomodação. Traduzindo, “se todo mundo faz o errado, não fico chateado, faço papel de otário.”

E aos trancos e barrancos
Lá vou eu!
E sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu…

“Apesar das dificuldades, eu continuo tentando levar essa vida mais ou menos e me contento com o que o governo me oferece, ainda que seja esterco”

Deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)
Deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)
Deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)
Sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu…

 

Repete o refrão… Zeca! Esse filósofo, não, sociologista, não… Intelectual da relação da população oprimida por uma falsa democracia.

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