Meu direito termina quando começa o do funkeiro

Ontem fui abençoado com festinha tarde da noite com direito a caixas de som para pessoas bêbadas falarem no microfone. E, na outra ponta da casa, podia ouvir muitas motos entrando e saindo do condomínio tocando funk alto. É de se desconfiar o que tanto carregavam . Porque não basta ser traficante, tem que colocar música alta de madrugada e “tunar” a moto pro motor roncar à beça, acelerando totalmente sem necessidade numa rua residencial. E, no condomínio ao lado, também não existe a possibilidade de se divertir de forma discreta sem incomodar os outros. Tem que ser na base da bagunça. Isso é Rio de Janeiro.

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Dia de Frescão

Depois de roubarem meu biscoito e minha fluoxetina, tive a idéia (logo vi que sensata) de torrar 10 reais e voltar de frescão pra casa.  Além da paz proporcionada pelo frescão, pelo conforto de não ter que mudar de ônibus e pela menor quantidade de gente parando o ônibus, era, afinal, um ar condicionado de verdade. E uma vezinha só no mês, que mal faria. Levei 2 horas e meia pra chegar aqui e acho que se tivesse ido de quentão, além de perder o prazo da bilhetada única, ia surtar em algum ponto entre São Conrado e a Barra e teria me matado ali mesmo. No frescão, não tinha noção do quão quente estava lá fora, só tive quando desci, sete da noite aqui no meu bairro, e senti a calçada quente no meu pé (de tênis!). Claro que não fiquei o dia todo nesse frescão (apesar de ter parecido, principalmente na abençoada Bartolomeu Morte), e sim, senti calor pra caralho na ida e no centro da cidade. Já estou cogitando voltar do bucomaxilo pela Cidaduni, pelo menos vou pegar um caminho que eu me fodo, mas já estou calejado (e, sim, é bem mais agradável o trânsito da Linha Amarela do que o anda não anda da zona sul).

Algumas coisas me chamaram a atenção no frescão, um deles foi o fato de ter gente em pé. Fiquei pensando, até São Conrado, como o motorista saberia se tem lugar ou não, porque, sim, apesar de ter menos sobe-desce (principalmente, menos desce (mas houve um desce relevante, uma mulher bem gata em São Conrado)), ainda subiu bastante gente e estava ansioso pelo momento em que ele ia passar “direto”. Mas, em São Conrado, começou a ficar gente em pé… Daí, a primeira coisa que eu pensei foi “Que absurdo, a Redentor nem tem um sistema para evitar constrangimentos”, depois foi “Otários, pagando 10 reais e aceitam ficar em pé”. E, então, tive um raciocínio racional, e percebi o desespero das pessoas.

Àquela hora, em São Conrado, os ônibus convencionais e mesmo os de ar condicionado, em direção à Barra, passam lotados. Com o calor, mesmo os de ar condicionado não deviam estar dando vazão, mas, ainda que dessem, ia ser numa situação de ir em pé amassado, possivelmente com “nem”. E sem bilhete único. Os “quentões” teriam bilhete único (ou não…). E, chegando na Barra, para ir para o Rio das Pedras, teria que enfrentar a mesma situação de ônibus lotados/com fila infinita ou ir atééeé´o Barra Shopping e pegar mais trânsito do capeta. Então, possivelmente, o frescão, ainda que em pé, é a opção para se deslocar nestas condições. E, perceba que, mesmo a opção de “luxo” que é o frescão é escassa, apesar da demanda (pessoas em pé, possivelmente tem demanda para dois ônibus no mesmo intervalo de tempo), e ele só passa de meia em meia hora no horário de hush. Ou seja, até para se dar ao luxo, você corre o risco de esperar/ficar em pé.

Aotra coisa coquero lhes dizer é que, ao contrário do Frescão da Grajaú-Jacarepaguá, freqüentado basicamente por engravatados e moças maquiadas, a gente que pagou 10 reais parecia a mesmíssima gente que pega os “quentões” (tirando, talvez, pela falta de funk no viva voz), mas, especificamente com relação à vestimenta.  Me parecia que são os mesmos trabalhadores, talvez fosse por conta do calor que eles pegaram esse (na mesma filosofia que eu do “uma vezinha só) ou é aquela turma que tira onda sem poder… E um fato que me leva a crer nisso é que o frescão, inacreditavelmente, ENTRA no Rio das Pedras e muita gente desce lá. Se ele entra, é porque tem sempre demanda. Eu vi um tipo particular que tira onda sem poder, o cara tava lá de camisa regata, mostrando no tablet suas fotos na praia pra uma mulher ao lado.

Já estou aqui planejando outras maneiras de voltar de Botafogo nesses horários ingratos. Voltar pelo centro do RJ não adianta, pois acabaria pegando ônibus lotado também (apesar de que poderia tentar no ponto final) e, principalmente, engarrafamentos (Francisco Bicalho, Praça da Bandeira, Rua da Carioca, etc). E pensar que a Linha 4 do metrô – que vai ajudar, mas não totalmente, a minha volta da Zona Sul – só fica pronta no começo de 2016… Esse transporte de massa deveria ir até o Rio das Pedras, permitem a densidade populacional absurda e não oferecem infraestrutura. E, possivelmente, na Freguesia também, que já está num nível Zona Sul/Tijuca de ocupação de prédios, sem qualquer contrapartida de mobilidade, tanto que hoje, tirando os condomínios “5 estrelas”, os mais valorizados são os prédios próximos de acessos à Linha Amarela: a única ferramenta de mobilidade – e, lamentavelmente, ainda rodoviária…

PS: Durante quase todo o trajeto, ficou um Jaguar do poder legislativo e um ônibus cor de vinho da Reitur (acho que era do condomínio Mediterrâneo). Esse problema do trânsito afetando diretamente cidadães do poder público, será que não serve de alerta?

PPS: Olha que bizarro o único resultado para jaguar LUY1111 no Google: Entre os carros socorridos estava um Jaguar branco, zero quilômetro, placa LUY 1111. O carro estava boiando na Lagoa, nas imediações do Corte do Cantagalo.

PPPS: Conta – distância = 31 km, tempo = 2h 20
velocidade média aproximada = 13,8 km/h

Só para efeitos de comparação, eu fui a pé uma distância de 2,5 km em meia hora, velocidade = 5 km/h
De bicicleta, fiz 2 km em 10 minutos 12 km/h

Considerando que fui acompanhado por um mesmo automóvel de Botafogo à Barra, e que o frescão parou poucas vezes, de fato, teria sido melhor voltar de bicicleta. Pena que a bicicletinha do Itaú só ande pela Zona Sul e Centro…

Apenas o nascer de um dia no Rio de Janeiro (possível repost)

Saio de casa ainda com sono, meu cérebro ainda está dando boot, mas não há tempo a perder. Vou caminhando e me deparo com a primeira pichação. Vou começando a acordar para as desgraças do dia, viro uma esquina e me junto a uma pequena multidão andando como zumbis em direção à mesma rua, a estrada principal onde passa o transporte e logo percebo um rádio tocando funk alto, cortando o silêncio. Uma saudação em forma de berro da outra calçada também pode romper o silêncio. São seis da manhã, não acredito ser apropriado uma música dessas e um berro desses. Possivelmente será assim também no transporte. Seguindo em direção à estrada, posso avistar um carro indo pela contramão e outros avançando o sinal vermelho: são 6 da manhã ainda, por que é que deveriam cumprir as leis. É a transição dos sem noção da noite para os estressados da manhã e lá vou eu, me arriscando, desafiando esses dois grupos. Possivelmente serei xingado por atravessar na faixa, ignorando os que avançam o sinal. O transporte passa cheio e você, amaldiçoado pelo conhecimento, sabe que o transporte implementado ali não é adequado. À essa altura eu já estou praticamente acordado e acordo totalmente quando entro na condução e ninguém se oferece para segurar a mochila, então lembro que possivelmente 90% das pessoas sentadas neste transporte são cristãs e vão para a igreja todo domingo se certificar que o reino dos céus é para quem é generoso e solidário. Pelo menos era isso que diziam na época que eu fiz catequese. O Bom dia dado ao motorista não é respondido e o carregamento está completo. Estou 100% acordado e estressado, pronto para um dia, para atrasos e decepções.